29 de out. de 2012

Seu Perfume



Comprei um vidro do seu perfume e encharquei a minha casa de você, derramei você nos livros, nos travesseiros e nos lençóis, te derramei nos sapatos e te deixei grudar nas minhas meias, te espalhei pelos cabelos e pelas dobras do corpo, te misturei nas fontes de água e tomei banho com você, tomei banho de você. Tomei esse banho e depois não tomei nenhum outro mais, deixei o seu cheiro ressecar e formar crostas, deixei você cair da minha pele e virar poeira, parei de varrer a casa e tudo o que eu tenho virou também poeira.
Pensei que não era o bastante e resolvi te derramar ainda nas minhas roupas, nas roupas dos meus familiares, dos meus amigos, nas roupas que ficam expostas nas vitrines das lojas, nos tecidos sem forma que irão tornar-se roupas, nos fios de náilon, nas crianças chinesas, nas plantações de algodão, na máquina de lavar. Quero sete bilhões de pessoas cheirando à você. Quero sete bilhões de você cheirando à pessoas. Quero você cheirando à você,  já gastei todo o perfume.

25 de out. de 2012

Autópsia.



O abdome é dividido em nove quadrantes, os médicos delimitam previamente as linhas do esquartejamento, sobra aos assassinos pouco ou nenhum trabalho. Quero que você vá descendo a lâmina afiada da sua faca na linha imaginária marcada pelos mamilos, aproveite e roube, através deles, minhas melhores endorfinas batidas no leite. Quero que vá rasgando a pele aos poucos, isso, sem medo, sem deixar a mão tremer enquanto me corta, sem limpar o sangue que escorre, meu último desejo é sujar os seus sapatos.
Pela dor que eu sinto você já fez duas linhas verticais, dividiu meu corpo em três, mas as doenças são muitas, são necessários espaços menores para examinar alguém com precisão, não se preocupe, estou aqui para te ensinar, vou mostrar exatamente o que você tem que fazer. Seguro sua mão para te ajudar a abrir os dois últimos talhos horizontais, o primeiro bem na crista da bacia e o outro começando logo abaixo das costelas, imagino que você esteja pensando em como elas ficariam uma delícia defumadas e regadas ao molho de churrasco, queria que tivesse me avisado da sua antropofagia antes que eu te permitisse tomar conta da minha autópsia.
Pronto, estão aí expostos os nove pedaços de mim que você desconstruiu, quero que me diga qual deles apresenta o maior grau de macicez, só não repare essa discreta distensão ali no meio, bem aonde você apoiou a mão trêmula, cansada de tanto me dilacerar, é o resultado de todo o ar que engoli junto com as palavras que tanto ensaiei, mas que fiz questão de não te entregar.

17 de out. de 2012

E daí?



E daí se eu gosto de sangue?
E daí se minha analista insiste em me perguntar se eu já me apaixonei e eu nunca sei o que responder e acabo dizendo que não?
Às vezes digo que sim e a conversa fica estranha, estranha por que eu não consigo deixar de pensar em quem eu amei. São fantasmas, eu sei, mas são meus fantasmas e gosto que eles me rodeiem durante o dia, gosto de ver os rostos dos meus fantasmas se deformando pelo meu afastamento físico com os donos de seus corpos, mudando de traços pela brincadeira do esquecimento, até que se tornam caricaturas completamente distorcidas daquilo que um dia eu conheci tão bem e, ainda assim, gosto que eles estejam ali, que participem comigo de cada pequena atividade, que continuem me conhecendo, mesmo que somente na realidade paralela que criei para nós, eu e meus amores-fantasmas. Forço uma intimidade com ilusões que querem ir embora, é verdade, diversas vezes já me pediram a carta de alforria, mas são minhas ilusões, só vou deixá-las partir quando eu não tiver mais o que contar, quando eu não tiver mais vontade que me conheçam; venha, ilusão, é inútil resistir, sente-se, fiz macarrão e comprei vinho branco para o jantar.
Daqui de onde estou sentada não vejo problema nenhum em gostar de sangue. A vida é suja assim mesmo e, dentro dela, eu prefiro ficar com o que é mais cru, com o que é mais líquido e colorido. Limpas são apenas as ilusões que, apesar de também me agradarem muito, não servem para andar de mãos dadas na rua, nem para dar beijos no cinema; o limpo e o bonito não satisfazem por completo, o sujo precisa fazer o contrapeso, eu fico com o sujo, não me importo, quero mesmo é ter a liberdade de escolhê-lo.
E daí se eu não quiser falar de amor?

12 de out. de 2012

Ossos do Ofício



Às vezes imagino meu corpo sem a pele, as órbitas vazias de olho, o nariz afilado sem cartilagem e sem também nenhum sinal de que algum dia em mim existiram orelhas (PARA SEREM MORDIDAS, PARA OUVIREM SUSSURROS); somente os ossos e os dentes podres pendentes da mandíbula quebrada da caveira (NÃO IMPORTA O QUE SE FAÇA EM VIDA, OS DENTES SEMPRE APODRECEM).
Arranco mentalmente cada camada. A epiderme sai com uma facilidade surpreendente, expondo o tecido adiposo incomodamente amarelo e macio e os músculos atrofiados, que exibem o mesmo aspecto de carne fresca das peças de gado penduradas por ganchos na vitrine do açougue; tiro os nervos, os vasos, deixo a linfa incolor transbordar pela fáscia friável do abdome enquanto me desfaço gentilmente do subcutâneo e, finalmente, alcanço os ossos, a única coisa que resta depois dos anos, quando resolvemos matar a saudade e abrir o caixão.
Gosto de tentar imaginar o contorno do meu crânio sem o disfarce de pele que o encobre para garantir ao corpo seu humilde espaço na normalidade. Deslizo a mão por baixo dos cabelos e sinto os relevos e as depressões sob o couro móvel e me agrada projetar na mente a imagem que me perseguirá pela eternidade, o último resquício de matéria que continuará me prendendo à terra, mesmo quando eu já não mais tiver essa necessidade - de estar em algum lugar, de ser alguma coisa. É um alívio insólito mentalizar meu esqueleto, exibir em um rolo de filme imaginário a minha própria decomposição, assistir larvas cilíndricas e aneladas esgueirando-se por entre as catacumbas da medula óssea, torcendo para que familiares não tenham o mau gosto de jogar sobre mim tristes flores de finados e punhados gordos daquela terra pálida e lazarenta que acomoda os parasitas.
Não me olhe desse jeito, não me agrada também abordar o assunto, sou do tipo que vira o rosto ao passar pelo cemitério, mas como nada pode saciar as dúvidas a respeito do destino da alma (QUE ALMA?), ao menos me acalma programar a ordem de exoneração de cada órgão aprisionado por detrás das grades de arcos costais; quero dar de comer aos vermes primeiro o coração, por último o pâncreas ou o rim esquerdo, assim não me parece tão ruim.

8 de out. de 2012

As pessoas são todas muito chatas. Sim, todas.



Eu costumo reclamar muito sobre o quanto as pessoas me irritam, sobre como eu nunca vou conseguir manter um relacionamento, uma vez que todas as pessoas que eu conheço acabam, uma hora ou outra, me cansando (e não do jeito bom). Antes de imaginar como vai ser meu casamento (que casamento?) eu já quero procurar o telefone de advogados para cuidar do meu divórcio. Eu tenho certeza que pra mim não vai ter essa coisa de feliz para sempre, simplesmente por um único motivo: as pessoas são todas muito chatas. Sim, todas.
Mas peraí, eu sou uma pessoa e eu não sou chata. Todas as minhas piadas são muito engraçadas e qualquer um teria a sorte de morar no meu corpo e passar todas as horas de todos os dias dentro da minha cabeça, certo? Ahn, mais ou menos. Eu realmente não me acho tão chata, afinal são 27 anos de convivência e, apesar de minhas disparidades comigo mesma, consigo me achar agradável durante a maior parte do tempo. Mas sim, eu sou chata. E muito. Assim como todo mundo.
Acho que existe algum mecanismo de defesa no ser humano que impede que ele perceba a própria chatice, de forma que ele possa viver anos e anos sendo aquela pessoa que pergunta se é "pavê ou pacomê" sem se incomodar com isso da mesma forma que se incomodaria se essa frase saísse da boca de outro ser de luz, que se acha engraçadíssimo, assim como ele. Porém, existe uma falha nesse sistema. Sim, se você parar para se escutar, naquele momento logo antes de dormir, vai conseguir perceber o quão insuportavelmente entediante e piegas você consegue ser.
Por exemplo, esses dias ando tendo aquelas insônias de ficar horas rolando na cama sem conseguir mergulhar no estado de espírito elevado que tanto me agrada. Foi quando parei para ouvir pela primeira vez as vozes dentro da minha cabeça se manifestando, que entendi como é difícil achar uma pessoa legal no mundo, principalmente porque eu não sou uma delas.
(flashback para a cena de Marina -eu- tentando dormir)
(... alguns minutos de silêncio ...) "eu gosto de uvas" "faz tempo que não como uvas" "hum... foi um bom restaurante que fui no fim de semana né" "a salada tava muito boa" "preciso comer mais salada" "amanhã vou no supermercado e compro coisas pra fazer salada" "não vou ficar gastando dinheiro quando posso fazer uma coisa tão fácil dessas em casa" "♫ I like big butts and I cannot lie ♪" "não ok, vamos dormir agora, você tem que acordar cedo amanhã" (silêncio) "ai droga acho que deixei dinheiro dentro da minha calça jeans" "se for uma nota de 2 reais eu não me importo, mas se for uma de 20 eu quero pegar agora" "não, deixa, amanhã eu pego, é só eu não me esquecer" "dinheiro na calça, dinheiro na calça, dinheiro na calça, dinheiro na calça" "ah não, agora acho que tenho que fazer xixi" "bom se eu levantar pra fazer xixi melhor pegar logo o dinheiro na calça" "não, eu não posso estar com vontade, acabei de ir no banheiro" "nossa se eu acordar no meio da noite com vontade de fazer xixi vou ficar muito puta" "♪ you other brothers can't deny ♫" (e continua por mais algumas horas).
Não sei se fui clara o bastante. Se quando eu era pequena meus pais cantavam música pra me fazer dormir, hoje em dia eu me encarrego de entediar a mim mesma até não aguentar mais e ser obrigada a dormir. E, se uma pessoa consegue ser tão chata a ponto de fazer a si própria dormir, eu não sei quem eles estão tentando enganar com esse papo de paz mundial. Afinal, guerras só acontecem porque as pessoas não se aguentam mais e querem matar umas às outras, certo?
Aliás, com tantos problemas no mundo eles preferiram erradicar a varíola do que a chatice, né? Esse pessoal do governo não tem a menor noção de prioridades mesmo.

2 de out. de 2012

Anticoagulante




Acontece assim: eu corto os seus pulsos, a culpa vai parecer toda sua, corto seguindo o curso da artéria radial, quero fazer uma bagunça. Eu gosto de sangue. Eu gosto do seu sangue. Quero beber, colocar em um balde, derramar pela casa. Rolar no teu sangue, é isso o que eu quero. Mergulhar em piscina de plasma e enxergar através do seu vermelho, enquanto você cai debilmente na cama, quero nadar nas suas veias.

Sonho todas as noites em tirar sua vida com os dentes, usar os caninos para te rasgar em todos os pulsos principais. Por você, eu não beberia nada além de sangue, nada além do teu sangue, nem mesmo água, e estou com tanta sede, cinco litros de você só vão servir para engrossar minha saliva, tirar a minha água enquanto você sangra no colchão, mas não me peça para tirar também minhas máscaras, não quero acelerar a desidratação.
Seu corpo já está morto, inerte, pálido, chupei sua carótida como uma tangerina e continuo te deixando sangrar mesmo depois de passado o prazo de validade. Antes de beber, encho as tripas de heparina para te impedir de coagular dentro de mim, é muito do seu sangue para pouco ácido no meu estômago, a qualquer momento posso ter uma indigestão, mas ainda assim quero sua estirpe bem viva no meu esôfago e intestino, meu sangue e teu sangue com apenas uma camada de músculo liso para separar, quero me banhar nas suas feridas abertas para que elas não tenham tempo de cicatrizar.