Comprei um vidro do seu perfume e encharquei a minha casa de você,
derramei você nos livros, nos travesseiros e nos lençóis, te derramei
nos sapatos e te deixei grudar nas minhas meias, te espalhei pelos
cabelos e pelas dobras do corpo, te misturei nas fontes de água e tomei
banho com você, tomei banho de você. Tomei esse banho e depois não tomei
nenhum outro mais, deixei o seu cheiro ressecar e formar crostas,
deixei você cair da minha pele e virar poeira, parei de varrer a casa e
tudo o que eu tenho virou também poeira.
Pensei que não era o bastante e resolvi te derramar ainda nas minhas
roupas, nas roupas dos meus familiares, dos meus amigos, nas
roupas que ficam expostas nas vitrines das lojas, nos tecidos sem forma
que irão tornar-se roupas, nos fios de náilon, nas crianças chinesas,
nas plantações de algodão, na máquina de lavar. Quero sete bilhões de
pessoas cheirando à você. Quero sete bilhões de você cheirando à
pessoas. Quero você cheirando à você, já gastei todo o perfume.
O abdome é dividido em nove quadrantes, os médicos delimitam previamente
as linhas do esquartejamento, sobra aos assassinos pouco ou nenhum
trabalho. Quero que você vá descendo a lâmina afiada da sua faca na
linha imaginária marcada pelos mamilos, aproveite e roube, através
deles, minhas melhores endorfinas batidas no leite. Quero que vá
rasgando a pele aos poucos, isso, sem medo, sem deixar a mão tremer
enquanto me corta, sem limpar o sangue que escorre, meu último desejo é
sujar os seus sapatos.
Pela dor que eu sinto você já fez duas linhas verticais, dividiu meu
corpo em três, mas as doenças são muitas, são necessários espaços
menores para examinar alguém com precisão, não se preocupe, estou aqui
para te ensinar, vou mostrar exatamente o que você tem que fazer. Seguro
sua mão para te ajudar a abrir os dois últimos talhos horizontais, o
primeiro bem na crista da bacia e o outro começando logo abaixo das
costelas, imagino que você esteja pensando em como elas ficariam uma
delícia defumadas e regadas ao molho de churrasco, queria que tivesse me
avisado da sua antropofagia antes que eu te permitisse tomar conta da
minha autópsia.
Pronto, estão aí expostos os nove pedaços de mim que você
desconstruiu, quero que me diga qual deles apresenta o maior grau de
macicez, só não repare essa discreta distensão ali no meio, bem aonde
você apoiou a mão trêmula, cansada de tanto me dilacerar, é o resultado
de todo o ar que engoli junto com as palavras que tanto ensaiei, mas que
fiz questão de não te entregar.
E daí se eu gosto de sangue?
E daí se minha analista insiste em me perguntar se eu já me apaixonei e eu nunca sei o que responder e acabo dizendo que não?
Às
vezes digo que sim e a conversa fica estranha, estranha por que eu não
consigo deixar de pensar em quem eu amei. São fantasmas, eu sei, mas são
meus fantasmas e gosto que eles me rodeiem durante o dia, gosto de ver
os rostos dos meus fantasmas se deformando pelo meu afastamento físico
com os donos de seus corpos, mudando de traços pela brincadeira do
esquecimento, até que se tornam caricaturas completamente distorcidas
daquilo que um dia eu conheci tão bem e, ainda assim, gosto que eles
estejam ali, que participem comigo de cada pequena atividade, que
continuem me conhecendo, mesmo que somente na realidade paralela que
criei para nós, eu e meus amores-fantasmas. Forço uma intimidade com
ilusões que querem ir embora, é verdade, diversas vezes já me pediram a
carta de alforria, mas são minhas ilusões, só vou deixá-las partir
quando eu não tiver mais o que contar, quando eu não tiver mais vontade
que me conheçam; venha, ilusão, é inútil resistir, sente-se, fiz
macarrão e comprei vinho branco para o jantar.
Daqui de onde estou
sentada não vejo problema nenhum em gostar de sangue. A vida é suja
assim mesmo e, dentro dela, eu prefiro ficar com o que é mais cru, com o
que é mais líquido e colorido. Limpas são apenas as ilusões que, apesar
de também me agradarem muito, não servem para andar de mãos dadas na
rua, nem para dar beijos no cinema; o limpo e o bonito não satisfazem
por completo, o sujo precisa fazer o contrapeso, eu fico com o sujo, não
me importo, quero mesmo é ter a liberdade de escolhê-lo.
E daí se eu não quiser falar de amor?
Às vezes imagino meu corpo sem a pele, as órbitas vazias de olho, o
nariz afilado sem cartilagem e sem também nenhum sinal de que algum dia
em mim existiram orelhas (PARA SEREM MORDIDAS, PARA OUVIREM SUSSURROS);
somente os ossos e os dentes podres pendentes da mandíbula quebrada da
caveira (NÃO IMPORTA O QUE SE FAÇA EM VIDA, OS DENTES SEMPRE APODRECEM).
Arranco
mentalmente cada camada. A epiderme sai com uma facilidade
surpreendente, expondo o tecido adiposo incomodamente amarelo e macio e
os músculos atrofiados, que exibem o mesmo aspecto de carne fresca das
peças de gado penduradas por ganchos na vitrine do açougue; tiro os
nervos, os vasos, deixo a linfa incolor transbordar pela fáscia friável
do abdome enquanto me desfaço gentilmente do subcutâneo e, finalmente,
alcanço os ossos, a única coisa que resta depois dos anos, quando
resolvemos matar a saudade e abrir o caixão.
Gosto de tentar imaginar
o contorno do meu crânio sem o disfarce de pele que o encobre para
garantir ao corpo seu humilde espaço na normalidade. Deslizo a mão por
baixo dos cabelos e sinto os relevos e as depressões sob o couro móvel e
me agrada projetar na mente a imagem que me perseguirá pela eternidade,
o último resquício de matéria que continuará me prendendo à terra,
mesmo quando eu já não mais tiver essa necessidade - de estar em algum
lugar, de ser alguma coisa. É um alívio insólito mentalizar meu
esqueleto, exibir em um rolo de filme imaginário a minha própria
decomposição, assistir larvas cilíndricas e aneladas esgueirando-se por
entre as catacumbas da medula óssea, torcendo para que familiares não
tenham o mau gosto de jogar sobre mim tristes flores de finados e
punhados gordos daquela terra pálida e lazarenta que acomoda os
parasitas.
Não me olhe desse jeito, não me agrada também abordar o
assunto, sou do tipo que vira o rosto ao passar pelo cemitério, mas como
nada pode saciar as dúvidas a respeito do destino da alma (QUE ALMA?),
ao menos me acalma programar a ordem de exoneração de cada órgão
aprisionado por detrás das grades de arcos costais; quero dar de comer
aos vermes primeiro o coração, por último o pâncreas ou o rim esquerdo,
assim não me parece tão ruim.
Eu costumo reclamar muito sobre o quanto as pessoas me irritam, sobre
como eu nunca vou conseguir manter um relacionamento, uma vez que todas
as pessoas que eu conheço acabam, uma hora ou outra, me cansando (e não
do jeito bom). Antes de imaginar como vai ser meu casamento (que
casamento?) eu já quero procurar o telefone de advogados para cuidar do
meu divórcio. Eu tenho certeza que pra mim não vai ter essa coisa de
feliz para sempre, simplesmente por um único motivo: as pessoas são
todas muito chatas. Sim, todas.
Mas peraí, eu sou uma pessoa e eu não
sou chata. Todas as minhas piadas são muito engraçadas e qualquer um
teria a sorte de morar no meu corpo e passar todas as horas de todos os
dias dentro da minha cabeça, certo? Ahn, mais ou menos. Eu realmente não
me acho tão chata, afinal são 27 anos de convivência e, apesar de
minhas disparidades comigo mesma, consigo me achar agradável durante a
maior parte do tempo. Mas sim, eu sou chata. E muito. Assim como todo
mundo.
Acho que existe algum mecanismo de defesa no ser humano que
impede que ele perceba a própria chatice, de forma que ele possa viver
anos e anos sendo aquela pessoa que pergunta se é "pavê ou pacomê" sem
se incomodar com isso da mesma forma que se incomodaria se essa frase
saísse da boca de outro ser de luz, que se acha engraçadíssimo, assim
como ele. Porém, existe uma falha nesse sistema. Sim, se você parar para
se escutar, naquele momento logo antes de dormir, vai conseguir
perceber o quão insuportavelmente entediante e piegas você consegue ser.
Por
exemplo, esses dias ando tendo aquelas insônias de ficar horas rolando
na cama sem conseguir mergulhar no estado de espírito elevado que tanto
me agrada. Foi quando parei para ouvir pela primeira vez as vozes dentro
da minha cabeça se manifestando, que entendi como é difícil achar uma
pessoa legal no mundo, principalmente porque eu não sou uma delas.
(flashback para a cena de Marina -eu- tentando dormir)
(...
alguns minutos de silêncio ...) "eu gosto de uvas" "faz tempo que não
como uvas" "hum... foi um bom restaurante que fui no fim de semana né"
"a salada tava muito boa" "preciso comer mais salada" "amanhã vou no
supermercado e compro coisas pra fazer salada" "não vou ficar gastando
dinheiro quando posso fazer uma coisa tão fácil dessas em casa" "♫ I
like big butts and I cannot lie ♪" "não ok, vamos dormir agora, você tem
que acordar cedo amanhã" (silêncio) "ai droga acho que deixei
dinheiro dentro da minha calça jeans" "se for uma nota de 2 reais eu não
me importo, mas se for uma de 20 eu quero pegar agora" "não, deixa,
amanhã eu pego, é só eu não me esquecer" "dinheiro na calça, dinheiro na
calça, dinheiro na calça, dinheiro na calça" "ah não, agora acho que
tenho que fazer xixi" "bom se eu levantar pra fazer xixi melhor pegar
logo o dinheiro na calça" "não, eu não posso estar com vontade, acabei
de ir no banheiro" "nossa se eu acordar no meio da noite com vontade de
fazer xixi vou ficar muito puta" "♪ you other brothers can't deny ♫" (e continua por mais algumas horas).
Não
sei se fui clara o bastante. Se quando eu era pequena meus pais
cantavam música pra me fazer dormir, hoje em dia eu me encarrego de
entediar a mim mesma até não aguentar mais e ser obrigada a dormir. E,
se uma pessoa consegue ser tão chata a ponto de fazer a si própria
dormir, eu não sei quem eles estão tentando enganar com esse papo de paz
mundial. Afinal, guerras só acontecem porque as pessoas não se aguentam
mais e querem matar umas às outras, certo?
Aliás, com tantos
problemas no mundo eles preferiram erradicar a varíola do que a chatice,
né? Esse pessoal do governo não tem a menor noção de prioridades mesmo.
Acontece assim: eu corto os seus pulsos, a culpa vai parecer
toda sua, corto seguindo o curso da artéria radial, quero fazer uma
bagunça. Eu gosto de sangue. Eu gosto do seu sangue. Quero beber,
colocar em um balde, derramar pela casa. Rolar no teu sangue, é isso o
que eu quero. Mergulhar em piscina de plasma e enxergar através do seu
vermelho, enquanto você cai debilmente na cama, quero nadar nas suas
veias.
Sonho todas as noites em tirar sua vida com os dentes,
usar os caninos para te rasgar em todos os pulsos principais. Por você,
eu não beberia nada além de sangue, nada além do teu sangue, nem mesmo
água, e estou com tanta sede, cinco litros de você só vão servir para
engrossar minha saliva, tirar a minha água enquanto você sangra no
colchão, mas não me peça para tirar também minhas máscaras, não quero
acelerar a desidratação.
Seu corpo já está morto, inerte, pálido,
chupei sua carótida como uma tangerina e continuo te deixando sangrar
mesmo depois de passado o prazo de validade. Antes de beber, encho as
tripas de heparina para te impedir de coagular dentro de mim, é muito
do seu sangue para pouco ácido no meu estômago, a qualquer momento
posso ter uma indigestão, mas ainda assim quero sua estirpe bem viva no
meu esôfago e intestino, meu sangue e teu sangue com apenas uma camada
de músculo liso para separar, quero me banhar nas suas feridas abertas
para que elas não tenham tempo de cicatrizar.