12 de nov. de 2012

Telefonema.



Você me liga e eu quero te contar do meu dia, a sua voz está fria e eu quero falar de amor.
Me esforço para que minha voz pareça tão indiferente e distante como a sua já é naturalmente, então falo exatamente o oposto de tudo o que estou pensando, só fico satisfeita quando a frase me parece bastante cruel aos seus ouvidos (acho que você aguenta), mas seu tom permanece inalterado, vejo que acha graça das minhas maldades, a sua risada morna esquenta a minha orelha pelo telefone, minhas crueldades de amor não têm efeito algum sobre você.
Quero entrar na sua voz. Quero morar na sua voz.
Quero gravar minhas iniciais com uma navalha nas suas cordas vocais - o nó que a gente deu ficou frouxo demais.
Eu gosto de te ouvir enquanto coleciono palavras. Sua voz é muito fácil de desmembrar. Antes mesmo de você ir embora eu já colecionava essas palavras. Estúpidas. Desesperadas. Viscosas. Essas palavras que eu sabia que deixaria de dizer. Tenho hoje tantas delas guardadas que me pergunto, com uma certa surpresa, sobre o que conversávamos.
Mas que tolice a minha, nós não conversávamos.

5 de nov. de 2012

Há De Se Entender Que




Quantos cigarros você acha que seriam necessários pra esquecermos todos os desequilíbrios? Quando não é você errando sempre aparece alguém pra cumprir seu papel de infrator. Não há o que sustente sua paz, você bem sabe que precisa de tudo de pernas pro ar, assim é mais fácil foder a vida, não existe aquela necessidade chata de ficar gastando os músculos, causar contusões, convencer através da força pra ela te dar sem gritar, contar pro irmão mais velho, o pai e depois sofrer com a sua cabeça sendo cortada com a faca de mesa da mãe.

Você sorri, claro, é educado, tenta se vestir bem, mostra qualidades, os defeitos escreve em cadernos e depois queima cada folha chorando, como se colocasse fogo em seus próprios membros. Porque não ateia fogo em si mesmo? Se é tão bom em suportar e fingir, vamos fazer de conta que é alguma muçulmana suicida. Exploda seu crânio junto ao botijão, se destrua primeiro antes que estrague a vida de mais alguém.

As pessoas te olham torto na rua como se conseguissem torcer seu pescoço só de te ver passar, você torce pra que elas te esqueçam, não tem como cobrir os cortes na cara de raspão, todas acordam e já vão escovar os dentes, encaram no espelho as cicatrizes que você criou.

E as suas? As transplanta também pra poemas cheios de metáforas bonitas e depois os engole? Da descarga ou enterra no jardim? Seu cachorro não aguenta mais cavar o gramado, enfileirar as desgraças que você fez. Comece a esquecê-las na gaveta como suas coleções antigas, já que pra você são apenas dores passadas.