Você sabe que o sol vai morrer, em quatro ou cinco bilhões de anos o sol
vai apagar, um gigante entediado vai apertar o interruptor do universo e
desligar a nossa luz para que possamos dormir, vai levantar o planeta
inteiro entre o indicador e o polegar e embalar o nosso sono na palma da
mão, vai desejar boa noite, dar um beijo e caminhar por cima das
estrelas até nenhuma mais conseguir brilhar.
Toda quarta-feira é dia do mundo acabar, todo mês tem um eclipse raro que só pode
ser visto a cada setenta anos, todo ano o inverno fica um pouquinho
mais quente - é o sol chegando mais perto para se despedir. E, talvez, o
mundo acabe em um sábado e não em uma quarta-feira, eu sei, que injusto
a gente ter que trabalhar a semana inteira sem qualquer apocalipse para
descansar os pés - e logo no sábado, sábado a gente tinha combinado de
tomar aquela cerveja. Fazer o quê?, imprevistos acontecem. Mas não dá
pra remarcar? Remarcar o fim do mundo?, não, não dá, vai ter que ser no
sábado mesmo. E a nossa cerveja? Pode ser na quarta-feira, o mundo ainda
vai estar lá, a gente senta na esquina do seu prédio e olha as estrelas
que não foram ainda esmagadas. Quarta-feira eu não posso, enquanto o
mundo estiver por aqui, eu acordo cedo no dia seguinte.
Não vou
conseguir dormir ou trabalhar essa semana esperando o sol ser levado
embora, vou subir no telhado e estender um cobertor para ficar bem de
olho nos movimentos da galáxia, não quero perder a melhor parte e ter
que assistir a reprise na televisão, quero ser expelida para uma nova
dimensão da primeira fileira, com ou sem emoção?, sempre com emoção e,
caso mude de ideia ou não tenha outros planos, vou guardar um lugar pra
você ver o fim do mundo aqui do meu lado.
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